não resta. não. nada. cada esquina agora é luta. cada silêncio é puro desespero. as janelas, opacas, encarnadas, vibram ao lá do piano. o dó. a pena. sou breve, sou nunca. somos tempo instante. somos o olho que tudo vê, mas também as mãos que nada fazem. atiram pedras e tomam tiros. cada quadro é um retrato, pequeno, da destruição. de nós mesmos. implodimos a utopia. o tarô desistiu de prever: apenas diz veja você mesmo, se o estômago permitir. basta limpar o sangue das mãos, dos olhos, das roupas, e ajoelhar-se: desista. nada mudará. a essência criou-se de minúsculas efemeridades. nossa luta é em vão. a violência é gratuita. contra o sadismo, o sangue é desperdício. estenda a mão e puxe com a força da vida o desconhecido estendido ao seu lado. caminhem, de mãos emprestadas, contra o sol poente, contra o horizonte. é belo. abandonem a guerra, o campo de destroços, as trilhas da desconstrução. física. ninguém lê poesia. os poetas não existem. as pedras e as armas berram mais alto: ensurdecem. o trabalho do desaparecimento. cartógrafos desnorteados. entre os brônquios do esvaziamento, entre a úvula e o aperto; o petit pavê explode em sangue. o ar é ácido. a pedra cai. a bala sangra. o grito grita e a vida morre. a janela ri enquanto eu luto. eu caio. eu derrubo lágrimas e esperanças. pego moedas. entrego o ouro que não existe, entrego a esperança - que não há, entrego as memórias e o futuro. sentado no tapete empoeirado, a vida não permite algo além do silêncio. do respeito. da definitiva quietude frente ao mundo - é ruína.